Foto: Divulgação Embratur
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Guia de Salvador: descubra cultura, praias e história na capital baiana

Por Pedro H. Jasmim, pesquisador e professor da PUC-Rio, viajante profissional e fundador do grupo Berlinn

Salvador não é uma cidade que se vende sozinha em cinco minutos — mas, indo aos lugares certos, é difícil não se apaixonar. Eu que sou enviesado poderia dizer que talvez em trinta, vai?

Ela não se oferece de cara. Vai se revelando aos poucos: num mergulho improvisado, numa moqueca que chega fumegando à mesa, numa conversa que começa no almoço e termina sabe-se lá onde.

Não é uma cidade que te conquista pelo excesso mas sim pelo ritmo. Talvez por isso ela funcione melhor quando a gente para de querer “ver tudo” e começa só a estar. Sem checklist. Sem cronômetro.

Esse guia nasce dessa lógica: menos pressa, mais confiança nos lugares certos — e na própria cidade, que resolve o resto.

Onde Ficar

Rio Vermelho é, para mim, um dos melhores pontos de partida. Central, vivo, com noites agitadas e praias logo ali, ele concentra boa parte do que faz Salvador pulsar. Para quem busca algo mais econômico sem abrir mão de localização tem os bairros vizinhos que são ótimas opções um pouco mais baratas como, Ondina, Pituba ou Amaralina e resolvem bem. Já a Barra combina praia à porta de casa, um dos pores do sol mais bonitos do país e fácil deslocamento. Mas há um charme especial em se hospedar no Santo Antônio Além do Carmo: casarões antigos, bares cheios à noite, o Pelourinho a poucos passos e uma estética que traduz Salvador com mais delicadeza e densidade.

Onde Comer

Comer bem na cidade é quase inevitável, mas alguns endereços merecem confiança cega. O Di Janela, na região do Pelourinho, é daqueles lugares para sentar sem pressa. Vale pedir várias entradas, seguir para a moqueca e, sobretudo, não ignorar as caipirinhas servidas com picolé dentro — um detalhe que faz diferença. O Dona Mariquita é outro ponto obrigatório: a moqueca de ovo como entrada é excelente, o peixe vermelho frito é memorável e o restante do cardápio mantém o mesmo nível. Já a Casa de Tereza, além de tradicional, carrega um afeto especial. Bem turístico é famoso pelas moquecas e pela farofa, que valem muito a pena. Pede-se a telha de bijoux logo de início — é impossível se arrepender. O Boia, do chef Caioá, sobe um pouco o ticket médio, mas entrega uma das experiências gastronômicas mais consistentes da cidade. E, para quem acredita que simplicidade bem feita é o auge da sofisticação, o Boteco do França resolve tudo com o melhor arroz de polvo com camarão da vida e a cerveja mais gelada de Salvador.

Café da Manhã e doces

O dia seguinte começa melhor quando o café da manhã é levado a sério. A Casa Castanho e a Padó Padaria resolvem isso com competência. E porque ninguém é de ferro, sempre há espaço para um doce: os picolés da Capelinha, o Gelato Luce ou os cookies da Cookie Sobre Bakery funcionam como pequenos prêmios entre um compromisso e outro.

Praias

Entre uma refeição e outra, o corpo pede mar. A Praia da Paciência, no Rio Vermelho, é pequena, urbana e charmosa. Na Gamboa recomendo pegar um barco para ir até o Bar da Mônica, que oferece uma das vistas mais bonitas da cidade e um clima que convida a ficar. O Buracão, mais escondido, entrega um banho de mar intenso, enquanto o Porto da Barra segue sendo um clássico absoluto: democrático, bonito e com águas que parecem sempre no ponto certo.

O que fazer?

Salvador também se vive fora da areia. Um passeio de barco pela Baía de Todos os Santos — seja tranquilo, seja em formato de festa — é uma experiência que muda a percepção da cidade. Do mar, tudo ganha outra escala. A Casa do Carnaval da Bahia ajuda a entender que o Carnaval é muito mais do que festa: é história, política, invenção coletiva. Vale também circular pelas exposições do MAB e arredores, deixando o roteiro um pouco solto. Caminhar pela Mouraria, sem destino fixo, costuma render encontros inesperados.

Noite

À noite, a cidade pede e entrega. O Café e Cana, no Santo Antônio Além do Carmo, é daqueles lugares que equilibram bem gente, música e atmosfera. A Boca, também no Carmo, especialmente às quartas-feiras, quando recebe shows de drag, é vibrante e divertida. No Rio Vermelho, Bombar e Só Shape mantêm a noite acesa e imprevisível — como deve ser.

Extra e datas

Por fim, se houver liberdade para escolher a data da viagem, marque 2 de fevereiro. A Festa de Iemanjá é uma das experiências mais bonitas, coletivas e simbólicas do Brasil. Não é apenas um evento: é um ritual urbano que mistura fé, emoção e pertencimento de um jeito difícil de explicar — e impossível de esquecer.

Salvador não cabe em um guia. Mas com esses caminhos, ela se deixa chegar.

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